• Document: A Pequena Diferença. O lugar vazio Os prosdiorismos Natureza e discurso Eles que se virem! A modalidade e a negação
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I A Pequena Diferença O lugar vazio Os prosdiorismos Natureza e discurso Eles que se virem! A modalidade e a negação Eu poderia deixar de lado o meu título, que daqui a pouco vocês verão o que quer dizer. Mas, por uma questão de gentileza, já que ele foi feito para atrair, vou introduzi-lo por um comentário. Talvez alguns de vocês tenham compreendido: …ou pior é, em suma, o que sempre posso fazer. Basta eu lhes mostrar isto para entrar no âmago do assunto. Mas, para não ficar no sentido, que, como todo sentido, é uma opacidade, comentarei textualmente este título. Ocorreu a alguns lerem-nos mal. Acharam que era …ou o pior. Não é a mesma coisa, de modo algum. Pior é o que chamamos um advérbio, como bem ou melhor. Dizemos eu vou bem, dizemos eu vou pior. É um advérbio, mas disjunto. Disjunto de algo que é chamado a ocupar um lugar – o verbo, justamente, que aqui é substituído por três pontos. Esses três pontos se referem ao uso comum dos textos impressos – o que é curioso – para marcar ou criar um lugar vazio. Meu título enfatiza a importância desse lugar vazio, e demonstra igualmente que essa é a única maneira de dizer alguma coisa com a ajuda da linguagem. 11 12 de um e outro sexos 1 A observação de que o vazio é a única maneira de agarrar algo com a linguagem permite-nos, justamente, penetrar na natureza desta última. Vocês sabem que, a partir do momento em que a lógica veio a confrontar-se com algo que sustenta uma referência de verdade, ela produziu a ideia da variável. Estou falando da variável aparente. A variável aparente x constitui-se de que o x marca um lugar vazio naquilo de que se trata. A condição para isso funcionar é que coloquemos exatamente o mesmo signifi- cante em todos os lugares reservados vazios. Essa é a única maneira de a linguagem chegar a alguma coisa, e foi por isso que me expressei nesta formulação – não existe metalinguagem. O que significa isso? Dizendo-o, eu pareceria estar apenas for- mulando um paradoxo, pois de que lugar eu diria? Como o digo na linguagem, já seria suficiente afirmar que há um no qual posso dizê-lo. Nada feito. Todas as vezes que se trata de lógica, é necessário que a metalinguagem seja elaborada como uma ficção. Ou seja, que forjemos no interior do discurso aquilo a que se chama uma linguagem-objeto, mediante a qual é a linguagem que se torna meta. Estou falando do discurso comum, sem o qual sequer existe meio de estabelecer essa divisão. Não existe metalinguagem nega que essa divisão seja sustentável. A formulação foraclui na linguagem que exista discordância. Então, o que ocupa esse lugar vazio no título que produzi para prender vocês? Eu disse que era forçosamente um verbo, já que há um advérbio. Só que elidir um verbo com os três pontos é a única coisa que não se pode fazer na linguagem, a partir do momento em que a interrogamos como lógica. No caso, o verbo não é difícil de encontrar: basta trocar a letra que começa a palavra pior [pire], o que dá dizer [dire]. Só que, na lógica, o verbo é precisamente o único termo do qual não se pode fazer um lugar vazio. Com efeito, quando de uma proposição vocês tentam fazer uma função, é o verbo que cria a função, e é daquilo que o cerca que vocês podem fazer um argumento. Logo, ao esvaziar esse verbo, faço dele um argumento, isto é, uma substância. Não é dizer, mas um dizer. Esse dizer, que retomo do meu Seminário do ano passado, exprime-se, como todo dizer, numa proposição completa – não existe relação sexual. O que o meu título deste ano propõe é que não há ambiguidade – ao sair disso, vocês só farão dizer pior. a pequena diferença 13 Não existe relação sexual propõe-se como verdade, portanto. Mas da verdade eu já disse que ela só pode meio-dizer-se. Logo, o que estou dizendo é que se trata, em suma, de que a outra metade diz pior. Se não houvesse pior, como isso simplificaria as coisas! A questão é saber se isto já não as simplifica. Uma vez que parti daquilo que posso fazer, e que é justamente o que não faço, isto não basta para simplificá-las? Só que, vejam, não é possível que eu não possa fazê-lo, esse pior, exatamente como todo o mundo. Quando digo que não há relação sexual, formulo, muito precisamen- te, esta verdade: que o sexo não define relação alguma no ser falante. Não é que eu negue a diferença que existe, desde a mais tenra idade, entre o que chamamos de uma menina e um menino. É inclusive daí que parto. Captem desde já, que quando parto daí vocês não sabe

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